Bent e a comédia belorizontina

28Fev11

Acabei de sair de uma peça super densa, tristissima, um texto belíssimo, atores ótimos. Da Campaha de Popularização do teatro. A fila cheia de pessoas que vc tem certeza absoluta que ganharam ingresso numa promoção e não têm idéia do que vão ver. Claro que lá dentro todo mundo ria de tudo. Os momentos mais dramáticos do texto eram pincelados por risadas aqui e ali. A velhinha homofóbica de verde que estava mais preocupada em como os atores aceitaram se beijar de verdade, “que viadagem, gente!”. O casal-periferia rindo da cara do ator que segurava o corpo do outro. Ah gente, dá um tempo.

Belo Horizonte é uma cidade terrível para o teatro. 90% dos atores e companhias vivendo de leis de incentivo e editais. Precisando de uma campanha de popularização todo ano para levar o povo para o teatro. E as pessoas vão só querendo poder se fazer de inteligentes para seus conhecidos, poder dizer “eu sou culto, eu vou ao teatro”. Mas claro que a peça em si não importa, tudo é encarado como Carlos Nunes, Caju e Totonho, Ceguinho. Sem querer desmerecer esses humoristas, claro que todos tem seu valor e seu papel. Mas já deu né? Belo Horizonte não pára de produzir mais e mais “Acredite um espirito baixou em mim”, “Como sobreviver a festas de buffet escaço”, “Ceguinho é a Mãe com a família e o cachorro 2″…

Mas é claro, é isso que o povo está acostumado a ver e que compram. É só ver alguém num palco e nego já pressupõe uma bobeirada sem sentido para fazer rir. E há uma ótima safra de novos atores pipocando por toda a cidade, mas não tem jeito. As pessoas começam com Goethe, Artaud, Brecht e terminam inventando uma comédia-BH-padrão. “Senão não vende”. Os espertos que querem fugir disso, somem daqui. Felizes são esses. O problema é se caem numa Zorra Total da vida. Todos os dias o mesmo lenga lenga. E falam que se não for assim ninguém sobrevive. Será? Se houvesse mais peças de maior qualidade, com textos mais densos e provocativos, que não fossem um mero motivo de vanglória e sim de reflexão, será que as pessoas não mudariam seus gostos?

É tudo falta de escolaridade e bom gosto, falta de senso de comunidade e educação. Belorizontino vai na peça da Broadway porque “É da Broadway!” e foda-se. Vou rir do ator babaca vestido de mulher, mesmo que ele esteja chorando o nazismo. Vou rir do personagem assassinado jogado na vala. Vou rir do namorado dele sofrendo e abraçando o amor morto pela primeira vez. E foda-se você que vai pela catarse.

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